"Beijos de Sexta"
Na cidade de Boêmia Escarlate, quando o relógio marca meia-noite de sexta-feira, algo peculiar acontece. As janelas se fecham, os sinos param de tocar, e um perfume de cravo-doce invade o ar. Não é bruxaria — é apenas sinal de que Vambeijo está à solta.
Vambeijo não era um vampiro comum. Nada de capas pretas, olhos vermelhos ou castelos assombrados. Ele morava num loft gótico-chique no centro, era viciado em filmes de romance dos anos 50, e tinha um gosto peculiar: ao invés de sugar sangue, ele preferia... beijar pescoços. Só isso. Mas com paixão.
Seu ritual era sempre o mesmo. Às sextas, pouco antes da meia-noite, ele se posicionava diante do espelho antigo (que convenientemente ignorava sua ausência de reflexo), pegava o batom "vermelho-sangue nº 666" e pintava os lábios com um capricho quase artístico. Depois, vestia seu terno vinho-escuro, calçava botas de couro de morcego italiano, e saía pela noite como um galanteador das sombras.
Seu alvo? As mulheres mais lindas da cidade. Mas calma — não era predador. Vambeijo tinha regras: só beijava quem estivesse sozinha, sonhando acordada, encostada em um parapeito ou divagando na praça, à luz dos postes antigos. E só deixava um beijo suave no pescoço, acompanhado de um leve arrepio e uma sensação inexplicável de ter vivido um romance inteiro em três segundos.
Nunca era o mesmo beijo. Havia os beijos melancólicos, que lembravam amores perdidos; os beijos ousados, que faziam as moças rir sozinhas no dia seguinte; e os beijos literários, cheios de citações que ninguém entendia, mas todo mundo achava poético.
Algumas mulheres juravam ter ouvido uma voz sussurrando versos de Neruda ao pé do ouvido. Outras garantiam que, após o beijo, ganharam coragem para terminar com o ex, escrever um livro, ou pintar quadros com sangue de cereja.
Claro, havia rumores. Alguns diziam que Vambeijo fora um poeta frustrado do século XIX, que fez pacto com a eternidade para que seus beijos fossem sua obra-prima. Outros achavam que era só um excêntrico com alergia a alho e trauma de compromisso.
O fato é que ele nunca repetia um beijo, nem uma mulher. Beijava e sumia como névoa entre as vielas.
Mas numa certa sexta-feira, ao pintar seus lábios e ajustar a gravata, Vambeijo sentiu algo estranho. Um arrepio. Não no pescoço, mas no coração — aquele órgão que ele pensava ter aposentado há séculos.
Na praça dos Jacarandás, ele viu ela. De vestido azul, olhos que pareciam lembrar-se de vidas passadas, e um livro de poesias debaixo do braço. Ela não se assustou quando ele apareceu — pelo contrário, sorriu como se já o esperasse.
— Você é o tal do beijo, né? — disse ela.
Ele tentou responder com charme, mas gaguejou. O batom escorregou levemente no canto da boca.
— E você... acredita em amores que duram mais que a eternidade?
Ela riu.
— Só se vierem com batom borrado e promessas poéticas.
Naquela noite, Vambeijo não beijou seu pescoço. Apenas sentou-se ao lado dela, dividiu o livro e leu em voz alta, sentindo algo estranho brotar. Algo que talvez fosse amor. Ou talvez fosse só poesia viva.
Desde então, dizem que ele ainda sai às sextas, mas beija bem menos. E só quando ela deixa.
Porque até os vampiros mais românticos descobrem, cedo ou tarde, que o beijo mais eterno... é aquele que se repete no mesmo pescoço, todas as noites, para sempre.
Nota do Autor:
Criei esta historinha por meio de IA e se trata de um personagem que dei vida em meus pensamentos desde os 19 anos. Espero que goste de Vambeijo!


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